sexta-feira, 5 de junho de 2015

O voo do passarinho

Pia um piado pequeno pomposo,
sibila um sussurro sereno sensível,
cintila seu brilho burlão e bravio,
e voa em volúpia fazendo um vazio.

Veio e foi-se o passarinho,
ficou o vão que deixou,
levou o teso que tinha trazido.
- E agora tudo é turbilhão!

Olha a aurora marota
rindo do meu desejo
de haver de volta o que voou.

Olha a paixão ignota,
assim que por um lampejo,
mais um espírito desterrou.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

De madrugada quase manhã - não se sonha

Sou um andarilho à procura de afago. Encontro-o. Desvio-me. Isolo-me.
No choro escondido grito pra debaixo de minha garganta o grito gutural gordo e gacheiro.
Um espelho d'água se formou nas bolsas inchadas debaixo de meus olhos: medo.
Hoje no jantar, senti ânsia em ver como todos comiam.
Hoje na cama, não consegui atribuir a função fechar aos meus olhos.
Hoje foi mais um dia de lamento do adeus.

Andarilho pelos meus medos construídos, não vejo por que saída me livrar de meu passado.

Sou um andarilho à procura da fuga. Uma porta. Abro-a. Entro. Fujo.
Em minha ânsia constante procuro fugir das soluções farmacológias.
Um cigarro?
Mais choro, mais desespero, outro grito pra dentro.
No encontro com os outros um sorriso falso de alegria.
Sou um andarilho profundamente triste.

Os olhos doem de se fechar. E li que Freud disse ser o sono uma forma de não se deixar contagiar das informações desse mundo, essas informações tão inconfortáveis ao mundo que é só da gente: meu mundo narcísico.

Medo.
Medo.
Medo.

Preferi o adeus ao risco.

Mas dormir e se proteger do lado de lá... parece ainda ser mais difícil.

sábado, 21 de março de 2015

A Epístola e o Café



"Abancavam depois numa taverna, que tinha escuras redes de pesca penduradas à porta. Comiam peixe frito, creme e cerejas. Deitavam-se na relva; abraçavam-se debaixo dos choupos; e queriam, como dois Robinsons, viver perpetuamente naquele pequeno lugar, que lhes parecia, no meio daquela beatitude, o mais belo da terra. Não era a primeira vez que viam árvores, céu azul e relva, que ouviam a água corrente e a brisa ramalhando a folhagem; mas nunca decerto tinham admirado tudo isso, como se anteriormente a natureza não existisse, ou como se não tivesse começado a ser bela senão depois de eles terem saciado os seus desejos."
Gustave Flaubert - Madame Bovary

              Estava ela ali, elegante como lhe pedia o cenário, misteriosa como era de sua natureza, e acessível somente aos remetentes certos, ou ainda, aos muito ousados, destes que abrem outras do mesmo tipo sem rodeios, com o único intuito de saciar seu desejo em descobrir o conteúdo desconhecido. Estava ela ali: a Epístola.
              Pouco mais, ele que há muito já havia lhe prometido um encontro, chegou quente como o esperado, com seu cheiro único conforme lhe confere o escarlate do grão do qual provém, acomodou-se ao lado da Epístola certo de seus objetivos naquele encontro tão planejado para que nada desse errado.
              − Enfim nos encontramos! − cumprimentou-lhe o Café.
              Eram duas da tarde de uma sexta-feira, um rendez-vous óbvio para ambos ali, naquela tarde, um horário típico para se fazer de conta a terceiros de que nada do que se está ali acontecendo virá porventura à luz do conhecimento alheio.
              Café mira Epístola. Epístola chega mais perto de Café. Conversam como se não soubessem, ou sequer imaginassem as proezas a passarem nas elucubrações um do outro. Eis que então, Café não querendo se demonstrar como um verdadeiro Café que era −lugar mais do que comum de todo café − deixa-se esparramar um quarto de si, apenas um quarto, sobre um pouco do que seria parte da Epístola, atento às ações que ela recepcionaria depois do proposital acidente. Neste ínterim, Epístola que se mostrou, de forma sofística, constrangida, deu um jeito de se deixar abrir, oportunidade esta em que Café pôde lê-la um pouco. Então, curioso de desejo, ou de desejo curioso, Café aproximou-se afim de ver mais de perto as letrinhas de Epístola e sentir que espécie de poesia ali havia; e de pouco em pouco ali entrou, palavra por palavra, frase por frase, parágrafo por parágrafo. Café chegou até a última linha, à saudação de adeus, e por fim à assinatura, lendo-a por inteiro. Neste instante, Café esparramou-se todo sobre Epístola e foi dado como completo o acidente. O proposital acidente.
              Ficaram ali misturados. Letras e líquido marrom. 
              Logo mais veio à cena um anacrônico rapsodo que vendo aquele emaranhado de Epístola e Café, pensou consigo mesmo que aquela imagem era deveras bela e digna de uma narrativa. Não era, pois, material para ser jogado fora.
              E o final da história do encontro entre a Epístola e o Café ficou a encargo desse rapsodo. Ninguém sabe o que aconteceu. Só se sabe o que o rapsodo canta. E quem quer de fato saber? Se tantas epístolas podem ser escritas, e tantos cafés podem ser coados.
              Hoje, o rapsodo canta esse epílio em botecos de MPB.


      

Do véu

Era só um bom dia (talvez em véu);

Mensagens sublimadas

Vapor do eu desejoso



O eu tem desejos que o próprio não sabe de onde vêm suas origens.



E o eu desconhecido é

No mais, imbuído da sua verdade

Um eu de vergonha

Assim vergonhoso

Que vem

Que vai

Em ventos

Em venturas

Sonhando em voos

Um vulto de volúpia.



E o eu tinha

pela parte

desconhecida do próprio eu,

em sonho,

sonhado com o seu desejo,

esse desejo desejado ser ignoto,

mas certamente desejado.



Um dia a mais se passa,

e ficam os véus

de adornos adjetivos

do "sim e não sei".


Poema sobre um popular e uns outros mais

Os populares incomodam as pessoas diferenciadas.

Os populares em volta da massa corpórea caída se falam.

Os populares são a turba do incômodo vociferando interjeições populosas de sentidos vazios.

Os populares são vistos como vazios.

Os populares falam.

Choram.

Cantam.

- Um popular se jogou do alto de um prédio.


Outros populares foram ver o ocorrido.

E tudo resultou em nada mais nada menos

do que em uma manifestação jornalística, dessas de poucas linhas, sobre mais alguns populares.


(Conversas esparsas mas intensas com Nathalia Krzcsimovski - WhatsApp, 5 mar. 2015)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Enleio de cores

Eu não sei o que houve no exato momento da leitura.
Eu não sei o que há porque não há trocas de olhares.
Eu não sei o que hesitar, por que simplesmente não o sei.

Era uma noite antes da janta quando um repente se fez.
Era um dia que estava chegando ao seu fim depois de se ter feito.
Era um momento desses inesperados em que não se sabe o que se faz.

Não foi memória involuntária.
Não foi desejo repetido.
Não foi porque não era.

Quando o vermelho não acontece no prosaico, mas se branda entre o azul e o branco, um hiato dialogal é criado que preenche de ainda mais dúvida o que principiara em vermelho.

E mais vermelho fica.
E de mais vermelho enche.
E assim em vermelho explode.

Pensamento: um confuso distrito indominado.
Sentimento: um se pensar ter certeza sobre.
Razão: um atrapalhar do tudo.

Então o azul revigora e surge uma situação dada como o que deveria ser, seja o contexto qual fosse, o importante é que prevaleça a santa paz indubitável do azul.

E nisso deixa-se de lado o vermelho.

Vermelho tão desejado, mas tão temido, e por isso, amordaçado.
Vermelho tão ébrio conforme a insanidade o configura.
Vermelho tão sedento de ser vivido.

Vermelho.
Ver. Sê-lo.
Vem sê-lo.
Vermelho.  
  

domingo, 18 de janeiro de 2015

O casamento escondido

Era um edital. Coisas da contemporaneidade. Só soube ele pelo edital: ela era casada. 

Se não fosse o google ele não o saberia. Ficaria achando que ela era livre, leve e solta. Não que ela o tivesse enganado. Não mesmo. Talvez, essa hipótese de ficarem juntos, nem que fosse por uma noite, fosse somente desejos da cabeça dele, desejos dos quais ela sequer participava. Ah! Mas e aquele dia em que os dois estavam lado a lado e ela acariciou o rosto dele? Sim, ela estava querendo alguma coisa. Mas não, não disse nenhuma frase que sinalizasse algum interesse extra-afetivo. Teria ele se apaixonado sozinho? Esquisito. Mas enfim, o edital era claro e fedido como a cândida: ela era casada. 

Destas coisas da vida de casado ele pouco sabia, ainda não tinha exercido tal aventura. E pensava se valeria de fato a pena se casar. No fundo, às vezes pensava que o casamento era apenas um meio estranho de ficar obrigatoriamente com uma pessoa só, pois da experiência que tinha, bem sabia que ou era dominado pela paixão e a sua amada não ficava sob seu poder, ou quando estava em um relacionamento estável deixava-se enjoar por todos os defeitos de sua companheira a ponto de vê-la desprovida de todas as qualidades com as quais a conhecera. 

E agora essa. Essa nova mulher que tinha aparecido e parecia ser tão legal era casada. E omissa. Existem as casadas mentirosas, e as omissas. 

Bem-aventurados são aqueles que têm paciência de fazer investigações no google.

   

Ele

Desde a primeira vez que o vi o achei interessante. E por achá-lo interessante, quis melhor conhecê-lo. Mas também por achá-lo interessante, fui incapaz de me fazer transparente. Eis que nasce a falha no contato: ruído linguístico promovido por um melindre em não querer assustar pelo simples fato de gostar.

À parte todo e qualquer pragmatismo conversacional, a única saída à vista era o ato de esperar. Mas esperar o trem é uma coisa, bem diferente de esperar outras coisas, como estas que envolvem sentimento alheio. Ai que preguiça! - uma grande preguiça de relacionamento.

Piadas nada pândegas pregadas pela vida. Mesmo com todos esses sentimentos de confusão linguística e de preguiça, ele tem um quê de interessante que me faz querer tentar de novo. Então eu vejo algumas fotos dele (ação essa permitida graças à contemporaneidade informatizada) e, ao mesmo tempo em que me interesso de maneira 3 vezes mais forte, 7 vezes mais intensa e, porventura, 13 vezes mais engajada, bate um aperto no peito despertado pela memória emotiva armazenada por 3 décadas, e eis que sobressai a preguiça de repetir tudo de novo, promovendo, na hora do diálogo, a já conhecida e recorrente confusão linguística: saem quaisquer palavras, menos o que de fato se queria fazer dito. E no mesmo circuito de ações, 13 vezes fico menos engajada, 7 vezes menos intensa e 3 vezes com o interesse mais fraco.

E ele continua interessante. Mas talvez porque esteja de longe.  





sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O homem ostracismado

Era natal. Como é de se esperar, todos fazem aquela cara de feliz de natal. Uns de fato estão felizes. Outros estão deveras disfarçando ser um ser que não o é. Neste meio, encontramos, pois, o homem ostracismado, que fita todos ao seu redor, mas, a mais pequena frase dita entre os seus semelhantes lhe é respondida com olhares de “não toque em minha ferida”, ou de “hoje não é data para verdades”.
Fujamos desta data esquisita para o homem ostracismado, que é o natal, e nos atentemos ao aspecto ermitão de nosso personagem. Voltemos agora à sua infância, aos seus  primeiros anos de vida. Ainda, leitor curioso, podemos ir além, e invadir a barriga de sua mãe; para os leitores mais espiritualistas, ainda podemos avançar para trás um século, ou mais outro e outros. E estaremos à procura infinda deste ostracismo que luta contra um estoicismo arraigado no que concerne ao que é o humano em sociedade sem conseguir resposta. 
Não é difícil para quem escreve, de repente, pensar no caso do homem ostracismado, uma vez que há uma vária parcela da população se ostracismando. Essa parcela está, neste momento, sofrendo um turbilhão de emoções incógnitas sem saberem que respostas dar a questionamentos os mais singelos possíveis, como por exemplo: por que estou aqui nesta casa?; ou ainda: por que estou andando com esta pessoa?; e mais: pra que estou fazendo essa coisa? – e é nessa hora que o mais religioso dos homens terrestres se sente abandonado por seu deus, seja ele de que credo for, até os sem credo. E explode de dentro do estômago para fora uma bolha de dez centímetros de diâmetro a subir pela garganta e atrapalhar o ar. Neste instante, o indivíduo, se está em grupo, faz um sorriso e um olhar blasé, disfarça, e sem saber do poder que tem sobre o seu corpo, em segundos faz a esfera, de que não se sabe direito, desaparecer. E somente quando se ostracismar novamente o indivíduo compartilhará de companhia secreta da bolha. Mas quando está só, a bolha é implacável, e cresce, e cresce, e cresce, não dói, não machuca, mas como dói e machuca tudo aquilo! De repente outra coisa vem à cabeça e num milagre (porque esses acontecimentos são metafísicos) a ignota bolha se desfaz. Descisma-se. E fica somente a ostra. 
Desse mal sofre toda a humanidade, caro leitor amigo. E digo-lhe: gosto de literatura porque quando me emaranho em uma história, não há cabeça pra bolha cismada nenhuma. Bendita seja a literatura e as metáforas. Mais benditos ainda sejam os que sabem interpretar metáforas e não se deixam enganar por falsos discursos de amor que somente levam à ignorância do não autoconhecimento.
Hoje eu me ostracismei de novo, e olhe que já é 26 de dezembro! É. Acho que não tem cura. Arranjemo-nos com paliativos.  
   

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Cuba

As notícias esquerdas dessa semana formam marco na História: Estados Unidos abre as portas do comércio para Cuba, e eis que o embargo contra o país de regime socialista cai.
Em Cuba não há fome; em Cuba há educação - da básica ao ensino superior - para todos; em Cuba todos têm acesso a medicamentos; em Cuba medicina não é comércio, é serviço social. Ah! mas tem um problema com Cuba que aterroriza a muitos: em Cuba não se acumula capital. E mais: em Cuba, os portões para o comércio globalizado foram fechados, trancafiados! Baniram Cuba do comércio com o mundo, só porque a Revolução Cubana queria levar remédios aos pobres; só porque a Revolução Cubana queria levar educação aos pobres; só porque a Revolução Cubana queria fazer essas coisas terríveis de gente comunista como Che Guevara, um filhinho de papai que ao invés de exercer sua profissão de médico e sossegar o traseiro na Argentina resolveu dar uma de Robin Hood latino americano e tirar índios e mestiços que sobraram da carnificina promovida pelos espanhóis desde o descobrimento das Américas da situação marginal em que viviam, promovendo-lhes o mínimo do mínimo: comida, saúde e educação.

Para aqueles que têm isso, essa coisa banal que é comida saúde e educação, parece besteria mesmo esse negócio de promover isso a quem não tem. Também é muito cômodo pensar que o grande culpado pelo baixo desenvolvimento de Cuba quanto à modernidade agrícola e à própria globalização é o comunismo, e não os Estados Unidos com seu imperialismo ferrenho que boicotou Cuba por mais de 50 anos. Assim como é mais cômodo ainda acreditar em uma mídia que trabalha a serviço de grandes oligarquias que visam enriquecer mais e mais do que ler um bom livro de História. É tão fácil entreter a sociedade com histórias de bichos papões comunistas cubanos... E isso é triste.

Vai, Monica, ser gauche na vida. E ouvir que só o capitalismo é que dá certo, tanto porque é graças a ele que você tem acesso às maravilhas do mundo moderno: internet, smartphone, notícias de última hora, carro do ano, touch screen, cliques dos mais variados possíveis que me permitem inclusive escrever esse texto que meia dúzia de pessoas lerá (se forem meia dúzia). É graças ao capitalismo - feliz daquele que conseguiu acumular mais capital - que se paga pela saúde, que se paga pela educação, que se paga pela segurança. Viva o capitalismo e a todos aqueles que passam por cima de si mesmos para acumular capital e fazer parte desta festa que se exalta em cima da desgraça de milhares de miseráveis que passam fome mundo afora! Viva o dinheiro! Viva a tecnologia! Viva!

Enfim, que a abertura econômica a Cuba promova a melhoria do regime socialista ao invés de levar a desgraça capitalista aos menos favorecidos.