domingo, 1 de julho de 2018

Major Diogo

Corro pelas ruas molhadas e sujas de São Paulo.
Tão grande metrópole, mas sempre o mesmo destino: o apartamento da Major Diogo - uma das mais sujas ruas da região central paulistana. 

Onde está o apartamento nesta noite?
Procuro incessantemente, são duas as torres... Nada. Teriam sido demolidas?

Na primeira vez, primeira ida, entrei no apartamento, havia uma festa, mas o morador não estava presente. 

Na segunda, entrei, mas já não havia festa, tampouco o morador. E quando olhei pela janela, percebi que estava no Crusp, não na Major Diogo.

Na terceira fiquei na esquina da rua, perguntando aos comerciantes locais do morador... Ninguém sabia de nada... Apenas encontrei na esquina um saco de lixo com fitas VHS: símbolo de um passado que se foi, mas que está registrado.

Na quarta vez, estava no apartamento da rua de cima, paralela à Major Diogo. Com o zoom de minha câmera digital consegui, enfim, ver o morador. Ele percebeu que eu o procurava. Mirou em minha direção, piscou um de seus olhos e, em seguida, fechou a cortina. 

Hoje os apartamentos não estavam mais lá. 

Hoje foi meu quinto sonho desesperador sobre o apartamento e o morador da Major Diogo. 

Lembranças de um abandono. 


Restos de lembranças de algo que nunca foi, mas que simplesmente se foi deixando feridas abertas cujo pus fervilha nesses devaneios oníricos na contramão de minha razão. 

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Uma mulher em fúria

Eu odeio homens, 
Esse bando de babacas que dominam o mundo, esse bando de babacas que historicamente e hodiernamente subjulgam as mulheres e, quando não o fazem, participam de um faz de conta de respeito, quando na verdade a única coisa que eles querem é manter uma boceta para poderem gozar dentro quando lhes convém. 
Odeio homens, porque se trata de uma luta de classes e, nós, mulheres, estamos sempre à margem. 
Odeio homens simplesmente porque eles também nos odeiam a nós mulheres. São escrotos, vis e, os que se dizem feministas, repito, só querem uma boceta garantida para poderem gozar. 
Isso não vai mudar nunca. E leis só servem para camuflar e amenizar o poder violento do ódio que eles, os homens, sentem por nós a cada conquista feminista. 

Enfim, odeio os homens porque simplesmente se trata de reciprocidade.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

O nascimento de uma arte com amor


mais clara fica a vida ida
as coisas idas
idas ficaram
travada a vida d’outrora
hoje é fluir em aurora
vida que vive volúpia
volúpia que desconhece o castrar
vida que vive e vive
vida que é e é
vida de job e arte
vida que é arte e job
amor em vida que vive
destravou-se a vida ida
e fez-se a vida que vê à frente:
amor amor amor
jobartamor em flor
nasceu do asfalto um lindo pé
pé de jobartamor

sexta-feira, 5 de junho de 2015

O voo do passarinho

Pia um piado pequeno pomposo,
sibila um sussurro sereno sensível,
cintila seu brilho burlão e bravio,
e voa em volúpia fazendo um vazio.

Veio e foi-se o passarinho,
ficou o vão que deixou,
levou o teso que tinha trazido.
- E agora tudo é turbilhão!

Olha a aurora marota
rindo do meu desejo
de haver de volta o que voou.

Olha a paixão ignota,
assim que por um lampejo,
mais um espírito desterrou.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

De madrugada quase manhã - não se sonha

Sou um andarilho à procura de afago. Encontro-o. Desvio-me. Isolo-me.
No choro escondido grito pra debaixo de minha garganta o grito gutural gordo e gacheiro.
Um espelho d'água se formou nas bolsas inchadas debaixo de meus olhos: medo.
Hoje no jantar, senti ânsia em ver como todos comiam.
Hoje na cama, não consegui atribuir a função fechar aos meus olhos.
Hoje foi mais um dia de lamento do adeus.

Andarilho pelos meus medos construídos, não vejo por que saída me livrar de meu passado.

Sou um andarilho à procura da fuga. Uma porta. Abro-a. Entro. Fujo.
Em minha ânsia constante procuro fugir das soluções farmacológicas.
Um cigarro?
Mais choro, mais desespero, outro grito pra dentro.
No encontro com os outros um sorriso falso de alegria.
Sou um andarilho profundamente triste.

Os olhos doem de se fechar. E li que Freud disse ser o sono uma forma de não se deixar contagiar das informações desse mundo, essas informações tão inconfortáveis ao mundo que é só da gente: meu mundo narcísico.

Medo.
Medo.
Medo.

Preferi o adeus ao risco.

Mas dormir e se proteger do lado de lá... parece ainda ser mais difícil.

sábado, 21 de março de 2015

A Epístola e o Café



"Abancavam depois numa taverna, que tinha escuras redes de pesca penduradas à porta. Comiam peixe frito, creme e cerejas. Deitavam-se na relva; abraçavam-se debaixo dos choupos; e queriam, como dois Robinsons, viver perpetuamente naquele pequeno lugar, que lhes parecia, no meio daquela beatitude, o mais belo da terra. Não era a primeira vez que viam árvores, céu azul e relva, que ouviam a água corrente e a brisa ramalhando a folhagem; mas nunca decerto tinham admirado tudo isso, como se anteriormente a natureza não existisse, ou como se não tivesse começado a ser bela senão depois de eles terem saciado os seus desejos."
Gustave Flaubert - Madame Bovary

              Estava ela ali, elegante como lhe pedia o cenário, misteriosa como era de sua natureza, e acessível somente aos remetentes certos, ou ainda, aos muito ousados, destes que abrem outras do mesmo tipo sem rodeios, com o único intuito de saciar seu desejo em descobrir o conteúdo desconhecido. Estava ela ali: a Epístola.
              Pouco mais, ele que há muito já havia lhe prometido um encontro, chegou quente como o esperado, com seu cheiro único conforme lhe confere o escarlate do grão do qual provém, acomodou-se ao lado da Epístola certo de seus objetivos naquele encontro tão planejado para que nada desse errado.
              − Enfim nos encontramos! − cumprimentou-lhe o Café.
              Eram duas da tarde de uma sexta-feira, um rendez-vous óbvio para ambos ali, naquela tarde, um horário típico para se fazer de conta a terceiros de que nada do que se está ali acontecendo virá porventura à luz do conhecimento alheio.
              Café mira Epístola. Epístola chega mais perto de Café. Conversam como se não soubessem, ou sequer imaginassem as proezas a passarem nas elucubrações um do outro. Eis que então, Café não querendo se demonstrar como um verdadeiro Café que era −lugar mais do que comum de todo café − deixa-se esparramar um quarto de si, apenas um quarto, sobre um pouco do que seria parte da Epístola, atento às ações que ela recepcionaria depois do proposital acidente. Neste ínterim, Epístola que se mostrou, de forma sofística, constrangida, deu um jeito de se deixar abrir, oportunidade esta em que Café pôde lê-la um pouco. Então, curioso de desejo, ou de desejo curioso, Café aproximou-se afim de ver mais de perto as letrinhas de Epístola e sentir que espécie de poesia ali havia; e de pouco em pouco ali entrou, palavra por palavra, frase por frase, parágrafo por parágrafo. Café chegou até a última linha, à saudação de adeus, e por fim à assinatura, lendo-a por inteiro. Neste instante, Café esparramou-se todo sobre Epístola e foi dado como completo o acidente. O proposital acidente.
              Ficaram ali misturados. Letras e líquido marrom. 
              Logo mais veio à cena um anacrônico rapsodo que vendo aquele emaranhado de Epístola e Café, pensou consigo mesmo que aquela imagem era deveras bela e digna de uma narrativa. Não era, pois, material para ser jogado fora.
              E o final da história do encontro entre a Epístola e o Café ficou a encargo desse rapsodo. Ninguém sabe o que aconteceu. Só se sabe o que o rapsodo canta. E quem quer de fato saber? Se tantas epístolas podem ser escritas, e tantos cafés podem ser coados.
              Hoje, o rapsodo canta esse epílio em botecos de MPB.


      

Do véu

Era só um bom dia (talvez em véu);

Mensagens sublimadas

Vapor do eu desejoso



O eu tem desejos que o próprio não sabe de onde vêm suas origens.



E o eu desconhecido é

No mais, imbuído da sua verdade

Um eu de vergonha

Assim vergonhoso

Que vem

Que vai

Em ventos

Em venturas

Sonhando em voos

Um vulto de volúpia.



E o eu tinha

pela parte

desconhecida do próprio eu,

em sonho,

sonhado com o seu desejo,

esse desejo desejado ser ignoto,

mas certamente desejado.



Um dia a mais se passa,

e ficam os véus

de adornos adjetivos

do "sim e não sei".


Poema sobre um popular e uns outros mais

Os populares incomodam as pessoas diferenciadas.

Os populares em volta da massa corpórea caída se falam.

Os populares são a turba do incômodo vociferando interjeições populosas de sentidos vazios.

Os populares são vistos como vazios.

Os populares falam.

Choram.

Cantam.

- Um popular se jogou do alto de um prédio.


Outros populares foram ver o ocorrido.

E tudo resultou em nada mais nada menos

do que em uma manifestação jornalística, dessas de poucas linhas, sobre mais alguns populares.


(Conversas esparsas mas intensas com Nathalia Krzcsimovski - WhatsApp, 5 mar. 2015)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Enleio de cores

Eu não sei o que houve no exato momento da leitura.
Eu não sei o que há porque não há trocas de olhares.
Eu não sei o que hesitar, por que simplesmente não o sei.

Era uma noite antes da janta quando um repente se fez.
Era um dia que estava chegando ao seu fim depois de se ter feito.
Era um momento desses inesperados em que não se sabe o que se faz.

Não foi memória involuntária.
Não foi desejo repetido.
Não foi porque não era.

Quando o vermelho não acontece no prosaico, mas se branda entre o azul e o branco, um hiato dialogal é criado que preenche de ainda mais dúvida o que principiara em vermelho.

E mais vermelho fica.
E de mais vermelho enche.
E assim em vermelho explode.

Pensamento: um confuso distrito indominado.
Sentimento: um se pensar ter certeza sobre.
Razão: um atrapalhar do tudo.

Então o azul revigora e surge uma situação dada como o que deveria ser, seja o contexto qual fosse, o importante é que prevaleça a santa paz indubitável do azul.

E nisso deixa-se de lado o vermelho.

Vermelho tão desejado, mas tão temido, e por isso, amordaçado.
Vermelho tão ébrio conforme a insanidade o configura.
Vermelho tão sedento de ser vivido.

Vermelho.
Ver. Sê-lo.
Vem sê-lo.
Vermelho.  
  

domingo, 18 de janeiro de 2015

O casamento escondido

Era um edital. Coisas da contemporaneidade. Só soube ele pelo edital: ela era casada. 

Se não fosse o google ele não o saberia. Ficaria achando que ela era livre, leve e solta. Não que ela o tivesse enganado. Não mesmo. Talvez, essa hipótese de ficarem juntos, nem que fosse por uma noite, fosse somente desejos da cabeça dele, desejos dos quais ela sequer participava. Ah! Mas e aquele dia em que os dois estavam lado a lado e ela acariciou o rosto dele? Sim, ela estava querendo alguma coisa. Mas não, não disse nenhuma frase que sinalizasse algum interesse extra-afetivo. Teria ele se apaixonado sozinho? Esquisito. Mas enfim, o edital era claro e fedido como a cândida: ela era casada. 

Destas coisas da vida de casado ele pouco sabia, ainda não tinha exercido tal aventura. E pensava se valeria de fato a pena se casar. No fundo, às vezes pensava que o casamento era apenas um meio estranho de ficar obrigatoriamente com uma pessoa só, pois da experiência que tinha, bem sabia que ou era dominado pela paixão e a sua amada não ficava sob seu poder, ou quando estava em um relacionamento estável deixava-se enjoar por todos os defeitos de sua companheira a ponto de vê-la desprovida de todas as qualidades com as quais a conhecera. 

E agora essa. Essa nova mulher que tinha aparecido e parecia ser tão legal era casada. E omissa. Existem as casadas mentirosas, e as omissas. 

Bem-aventurados são aqueles que têm paciência de fazer investigações no google.